- Cargill sinalizou flexibilizar compromissos de não desmatamento na Amazônia ao adotar o corte de 2020 para medir o desmatamento em sua cadeia de soja, alinhando-se ao reglamento da União Europeia (EUDR).
- Com esse corte, a empresa afirma que 99,3% de sua soja é “livre de desmatamento”; sob o corte de 2008, essa fatia seria de 94%.
- A mudança pode permitir que grandes produtores comprem soja de milhões de hectares desmatados após 2008, caso outros players sigam a mesma linha.
- O conservacionista Tiago Reis, da WWF-Brasil, critica a flexibilização, enquanto a Abiove, associação de fabricantes de óleo vegetal, diz apoiar o moratório, atribuindo pressões de leis estaduais à mudança.
- Nos últimos meses, três estados da Amazônia (Rondônia, Mato Grosso e Maranhão) promulgaram leis que afastam benefícios fiscais de empresas que cumprem o moratório, e o Supremo suspendeu uma lei de Mato Grosso que condicionava tais benefícios.
A Cargill sinalizou flexibilizar seus compromissos de não desmatamento na Amazônia, segundo apuração do Repórter Brasil. A empresa alterou o critério de mensuração da deflação na cadeia de soja, abrindo margem para desmatamento após 2008. A mudança foi publicada no relatório de sustentabilidade de 2024.
A prática anterior seguia a Moratória da Soja da Amazônia, que proíbe soja produzida em áreas desmatadas a partir de 2008. A nova linha de corte passou a ser 2020, ano também adotado pela Regulamentação Europeia de Desmatamento (EUDR), que entra em vigor no fim de 2025.
Essa atualização permite que 99,3% da soja da Cargill seja considerada “livre de desmatamento”. Sob o marco de 2008, o índice seria de 94%. A mudança é vista como facilita para grandes empresas agropecuárias aumentarem a produção com menor risco de violação.
Mudanças na metodologia e impactos
Tiago Reis, especialista em conservação da WWF-Brasil, afirma que a empresa contorna a moratória ao comprar soja de áreas desmatadas após 2008, beneficiando o setor que pressiona o fim do acordo. Não há opinião do veículo, apenas o relato das fontes.
O Moratória da Soja, adotada em 2006, já reduziu drasticamente áreas desmatadas para novas plantações. Em 2013, a ocupação em áreas desmatadas caiu para 1% do total de expansão de soja. A expectativa é de que a mudança amplie esse espaço.
Caso outros players sigam o exemplo da Cargill, até 2,5 milhões de hectares adicionais da Amazônia poderiam ser usados para cultivo de soja, segundo estimativas citadas pela reportagem.
Reações e cenário regulatório
A Abiove, associação que reúne indústrias de óleo vegetal e tem a Cargill entre seus membros, afirmou apoiar o Moratório pela sua “legado positivo”. A entidade reconheceu a mudança na posição da empresa, atribuindo-a a leis estaduais recentes.
Nos últimos seis meses, estados como Rondônia, Mato Grosso e Maranhão promulgaram leis que reduzem incentivos fiscais a empresas signatárias da Moratória. O STF suspendeu a lei de Mato Grosso enquanto se verifica sua constitucionalidade.
A Aprosoja-MT, grupo de lobby do setor, protocolou no CADE para questionar o Moratório, argumentando que ele cria um “cartel de compras” além da lei brasileira, afetando as receitas estaduais. A demanda busca frear o acordo vigente.
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