- o brasil é o principal importador mundial de carne de tubarão e alimenta com ela milhões em programas públicos, como escolas, hospitais, prisões e unidades militares.
- a carne, vendida como cação sem especificar a espécie, é amplamente usada em compras governamentais, com 1.012 licitações desde 2004 somando mais de 5.4 mil toneladas e pelo menos 112 milhões de reais.
- há preocupações com metais pesados, como mercúrio e arsênio, que podem afetar principalmente crianças e grupos vulneráveis, e a rotulagem confunde consumidores sobre a origem da proteína.
- a identificação da espécie nas licitações é rara; há exemplos de espécies ameaçadas como a angelshark, além de dúvidas sobre se as compras envolvem tubarões mais vulneráveis.
- entidades da sociedade civil e especialistas apresentam propostas, desde proibição de compras institucionais até maior rastreabilidade e testes de metais, com alguns municípios já suspendendo ou revisando o uso de cação nas merendas.
O Brasil é o principal importador mundial de carne de tubarão e, por meio de utilizações em órgãos públicos, fornece esse alimento a diversas instituições como creches, hospitais, prisões e unidades militares. A investigação da Mongabay aponta que milhões de crianças já teriam consumido esse tipo de carne em programas oficiais de alimentação escolar, hospitalar e de assistência social, bem como em bases da polícia militar e em unidades de saúde públicas.
Os relatos indicam que essa prática envolve milhares de contratos de compras governamentais, com a espécie nem sempre especificada, o que levanta dúvidas sobre a origem do produto e a possível entrada de espécies ameaçadas no cardápio público. A base de dados obtida inclui mais de 5,4 mil toneladas de cação, em contratos de mais de 112 milhões de reais desde 2004, com participações em 542 municípios de 10 estados.
A investigação utilizou documentos de compras públicas disponíveis online, atualizados por meio de portais de transparência municipais, estaduais e federal. Além de necessidades de alimentação, o estudo envolve questões de saúde pública, conservação de espécies e governança de programas de nutrição.
Panorama institucional
Entre os contratos de maior volume, houve uma aquisição de 600 toneladas de cação para milhares de escolas no Paraná, com gestores da área de alimentação reconhecendo dificuldade em identificar a espécie exata. Em várias aquisições, o foco recaiu sobre o corte da carne (filés, postas ou cubos) sem exigir espécie específica.
Representantes de organizações ambientais e de nutrição destacam a ausência de rastreabilidade suficiente e a possível disponibilidade de espécies em risco. Delegados de órgãos reguladores apontam que o rótulo cação pode ocultar a origem exata do animal, dificultando avaliações de sustentabilidade e conformidade com normas.
Contaminação e saúde pública
Shark meat costuma apresentar elevados níveis de metais pesados, como mercúrio e arsênico, o que representa riscos especialmente para crianças, gestantes e pessoas com deficiência imunológica. Países e organizações regulam esses níveis, mas a aplicação de testes de metais pesados não é obrigatória em todas as compras. Estudos indicam variações significativas nos teores de mercúrio entre amostras de tubarão, e relatos apontam que alguns produtos superam limites seguros.
Especialistas alertam que a contaminação tende a se acumular ao longo da vida, o que eleva preocupações para populações vulneráveis. Em grupos como crianças e idosos, os efeitos podem se manifestar mais rapidamente, enquanto o impacto cumulativo pode se refletir em problemas de neurodesenvolvimento e de saúde a longo prazo.
Caminhos e perspectivas
No campo regulatório, há propostas para restringir compras institucionais de carne de tubarão e incentivar rótulos mais precisos, com a exigência de identificação científica da espécie. Ações de conscientização pública têm sido impulsionadas por ONGs, enquanto governos e conselhos profissionais avaliam medidas para melhorar a fiscalização, a rastreabilidade e a segurança alimentar.
Especialistas sugerem o uso de ferramentas como DNA barcoding para identificar espécies na cadeia de suprimentos e ampliar a transparência das compras públicas. A discussão envolve ainda o potencial impacto econômico do setor, a necessidade de políticas públicas consistentes e a proteção de espécies ameaçadas.
Reação e próximos passos
Movimentos da sociedade civil defendem a suspensão de compras institucionais de cação até que haja recuperação de estoques de tubarões e avaliação de riscos à saúde pública. Em alguns municípios, decisões já foram tomadas para banir o cação de merenda escolar, enquanto outros seguem avaliando alternativas de peixe com cavidade de ossos menor ou maior aceitação nutricional.
Autoridades locais relatam que, mesmo diante de pressões, mudanças estruturais sobre o tema dependem de diretrizes federais claras e de uma política coesa para o consumo de carne de tubarão. A investigação ressalta a necessidade de equilíbrio entre oferta de proteína e proteção ambiental, com governance mais rigorosa e informação correta para consumidores.
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