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Até a última gota: o desafio da escassez de água

Cantareira opera a 20,2% e entra em alerta; Sabesp extrapola retirada de água, ampliando risco de racionamento em 2026, com impacto maior para as zonas vulneráveis

“Apartheid hídrico”. A redução noturna da vazão compromete o abastecimento dos bairros com maior vulnerabilidade social, observa ex-presidente da ANA – Imagem: iStockphoto e Cléia Viana/Agência Câmara
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  • O sistema Cantareira opera com 20,2% da capacidade, o nível mais baixo desde a crise de 2014, pressionando o abastecimento na região metropolitana de São Paulo.
  • A Sabesp tem extrapolado limites de retirada por meio da interligação Jaguari (Rio de Janeiro)–Atibainha (São Paulo), na expectativa de que chuvas futuras recompensem o volume, prática criticada como “pedalada hídrica”.
  • Há risco de racionamento de água em 2026, com bairros vulneráveis já convivendo com torneiras secas e regiões periféricas sujeitas a desabastecimento.
  • O conceito de “apartheid hídrico” descreve a desigualdade: áreas próximas às estações recebem água primeiro, enquanto locais mais distantes aguardam, com perdas de até trinta por cento do volume disponível. A Sabesp também reduziu a pressão para economizar água, deixando algumas zonas sem abastecimento em horários variados.
  • A regulação é debatida: Arsesp e SP Águas são citadas, com críticas a uma regulação frouxa e a uma suposta priorização de interesses de acionistas; caixas d’água foram instaladas em quatro mil domicílios vulneráveis pelo programa Reserva Certa.

A crise hídrica em São Paulo se agrava mesmo com chuvas intensas. O Sistema Cantareira, que abastece a capital a partir de mananciais distantes na bacia do Rio Piracicaba, no Sul de Minas, opera com apenas 20,2% de água disponível. A disparidade de volume entre bairros permanece, elevando o risco de desabastecimento.

Especialistas chamam a situação de “tragédia anunciada”. A Sabesp tem usado a interligação Jaguari-Atibainha para buscar estabilidade, transferindo até 8,5 m³/s. Mesmo assim, a pressão para atender a 39 municípios da região metropolitana segue crítica.

O que aconteceu, quem está envolvido e por quê

A Sabesp está recorrendo a extração adicional de água do sistema interligado com o Rio Paraíba do Sul, que atende também o Rio de Janeiro. A prática visa evitar o colapso, mas tem gerado discordâncias técnicas sobre a segurança hídrica e impactos à reserva. O ex-presidente da ANA, Vicente Andreu, acusa extrapolação de limites de retirada, alegando risco a longo prazo sem chuvas comprovadas.

Quando e onde

O quadro atual envolve a região metropolitana de São Paulo e o entorno, com alertas ativos desde o fim de 2024. O Cantareira opera com índices próximos aos mais baixos desde 2014, aumentando a possibilidade de racionamento em 2026. Regiões da capital, bairros periféricos e áreas litorâneas já registram desabastecimento intermitente.

Por que isso ocorre

A explicação envolve históricos de gestão, mudanças na regulação e eventos climáticos atípicos. A transferência de água para o estado paulista, sob gestão de acionistas privados, é contestada por críticos que apontam falhas no planejamento e na margem de segurança dos mananciais. Há também denúncias sobre “apartheid hídrico”, com efeitos desproporcionais nesses bairros.

Destaques operacionais e impactos

Para reduzir perdas, a Sabesp ampliou o regime de redução de vazão: de oito horas para até 16 horas de menor pressão, dependendo do reservatório. Ao mesmo tempo, a empresa aponta resultados de iniciativas como o programa Reserva Certa, com caixas d’água instaladas em milhares de domicílios de maior vulnerabilidade desde 2024.

O que dizem as autoridades e especialistas

A diretora-executiva da Sabesp admite falhas no atendimento a bairros distantes, mas sustenta que caixas d’água têm ajudado a mitigar o déficit. Analistas críticos destacam que a regulação tem falhas para impedir extração excessiva. O ex-presidente da Arsesp alerta para o enfraquecimento do papel regulatório, apontando impactos sobre tarifas.

Perspectivas e próximos passos

Especialistas alertam que, sem nova recarga de água e com demanda estável, o cenário pode exigir medidas duradouras de contenção. Técnicos responsáveis pela gestão de ativos estudam a ativação de equipamentos do volume morto para Jaguari e Jacareí, com previsão de implementação entre março e maio caso a situação não melhore.

Fontes oficiais apontam que o reforço da interligação entre represas e o atendimento emergencial continuam como principais ferramentas. A situação exige monitoramento contínuo e ajustes operacionais conforme evolução das chuvas e dos níveis de reservatórios.

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