- A comunidade indígena Macaquiño, no departamento de Vaupés, depende do rio Vaupés e de suas lagoas para água, alimentação e deslocamento de peixes.
- O complexo vínculo cultural e espiritual com as águas sustenta um calendário tradicional que orienta a colheita, a pesca e os rituais conforme as chuvas e o período seco.
- Técnicas tradicionais de pesca, como as armadilhas matapí, dorido e kakurí, são adaptadas às diferentes fases do ano e aos níveis de água.
- O uso de equipamentos modernos de pesca tem levado à queda de estoques e ao enfraquecimento do conhecimento ancestral, com relatos de desrespeito aos recursos.
- Embora não haja esgotamento completo dos peixes, há preocupações com a diminuição de espécies e com a perda do saber tradicional, conforme relatos de anciãos e líderes locais.
O rio Vaupés e sua extensa rede de cursos d’água e lagoons no Sudeste colombiano são centrais para a comunidade indígena Macaquiño, que vive às margens. O território fornece água potável, banho e limpeza, além de servir como rota de migração e berçário de peixes, base de alimentação local.
Para o povo Macaquiño, o rio representa mais que alimento: é parte de uma relação cultural e espiritual com as águas e as espécies que nelas habitam. O calendário tradicional acompanha as estações e orienta quando cada família pode pescar, colher ou caçar, sob regras ritualizadas.
O grupo afirma que a pesca ainda depende de ferramentas tradicionais herdadas, mas observa queda nas populações de peixes com a adoção de equipamentos modernos, como longas de pesca e redes de malha. O conhecimento ancestral também vem se esvaindo com o tempo.
Instrumentos tradicionais e modo de pesca
Entre os recursos tradicionais usados, destaca-se o matapí, também conhecido como doriñÿ em Cubeo, feito a partir de palmeiras diversas. Armadilhas são instaladas rio acima, cobertas com folhas, com abertura para o ingresso dos peixe. Há versões maiores, como o ñapa doriñÿ, próximas às margens.
Existe ainda o dorido, um matapí suspenso ligado a uma vara flexível por meio de anzol. O impacto do movimento do peixe aciona o mecanismo, impulsionando a vara e o cesto à superfície para capturar o alimento.
Mudanças sazonais e práticas em risco
As técnicas variam conforme a estação do ano, com o período seco favorecendo espécies como tucunaré e ñacundá que se abrigam em taboas e lagoons. Nessa fase, a pesca com a vara simples é comum. O uso de peçonhas, conhecido como barbasco, era controlado no passado por um sabedor, que supervisionava aplicações e a captura.
Hoje, há relatos de uso indiscriminado de venenos, segundo a CDA, o que pode comprometer o ecossistema local. A preocupação é a possível perda de equilíbrio entre natureza e comunidade, que historicamente mantinham práticas de manejo sustentável.
Afloramento de novos métodos e pressões
No período das águas altas, no entanto, surgem técnicas como o kakurí, ou kobobÿ, com cercas de juncos que delimitam áreas ribeirinhas. Pequenos peixes são capturados por uma fenda entre as paredes, com uma prece associada à instalação da armadilha.
Especialistas destacam que o declínio do conhecimento tradicional agrava a vulnerabilidade ambiental, uma vez que as práticas herdadas visavam justamente evitar a sobreexploração. A preocupação é que a transição para métodos modernos reduza a resiliência do território.
Fonte: estudo sobre etnoecologia e uso de peixes pela população Cubeo na Amazônia colombiana, citado pelo veículo Mongabay.
Banner: pesca em lagoa sagrada para a comunidade Macaquiño, no Vaupés.
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