- Cortes de ajuda internacional deixaram serviços de saúde sob pressão e podem provocar até 22,6 milhões de mortes adicionais até 2030, incluindo 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos.
- No leste de Uganda, Khadijah Kantono, mãe de nove, recebeu atendimento de uma equipe de saúde que reconheceu os sinais de risco, estabilizou e realizou cirurgia de emergência, salvando sua vida.
- Um mapeamento global de reformas em saúde indica consenso sobre a necessidade de países assumirem estratégias nacionais, com financiamento estável e mais recursos próprios, embora a fragmentação aumente.
- Desafios de implementação aparecem com frequência: estruturas institucionais, sistemas operacionais e força de trabalho ficam aquém das metas, e financiadores ainda influenciam prioridades.
- O caminho é reduzir a fragmentação, estabelecer uma via de financiamento coordenado e fortalecer sistemas nacionais; em Uganda, o foco em ownership nacional e orçamento de saúde deve seguir como modelo, com melhoria de acesso a atendimento de emergência.
Khadijah Kantono, mãe de nove filhos, sofreu hemorragia durante o parto na região leste de Uganda. A parteira Irene Koote reconheceu os sinais de perigo, estabilizou a paciente e acionou o médico imediatamente para intervenção de urgência. O parto ocorreu sem maiores complicações após a cirurgia.
Após o parto, o médico realizou uma cirurgia de emergência com apoio da parteira, removendo o útero dilacerado. Kantono sobreviveu graças à presença de profissionais capacitados atuando no momento crucial.
Em muitos lugares do mundo, esse nível de prontidão não existe, e o acesso a atendimento de qualidade é mais difícil.
Contexto global
Em 2025, a dissolução da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e cortes de ajuda externa provocaram consequências imediatas. Clínicas fecharam, medicamentos sumiram e o número de mortes evitáveis aumentou.
O recuo rápido da ajuda expôs fragilidades de um modelo de saúde global dependente de projetos de curto prazo financiados por doadores. Salta aos olhos a necessidade de mudanças estruturais.
O financiamento global em saúde caiu 21% em um ano, passando de US$ 49,6 bilhões em 2024 para US$ 39,1 bilhões em 2025, com queda prevista nos próximos cinco anos.
Caminhos para a reformulação
Há consenso de que é preciso reformar, com maior autonomia nacional, alinhamento institucional, financiamento de longo prazo e mobilização de recursos domésticos. Ainda assim, as reformas aparecem de forma fragmentada.
A implementação é apontada como principal entrave, pois foco excessivo em financiamento deixa lacunas em capacidade institucional e em sistemas operacionais. Os prejuízos afetam HIV, TB, malária e saúde da mulher.
Em meio a agendas diversas, a Organização Mundial da Saúde abrirá um processo para reunir Estados-membros, organizações multilaterais, filantrops e sociedade civil para desenhar o caminho.
Experiência de Uganda e próximos passos
Uganda já atua com maior controle local, convidando parceiros a financiar planos nacionais de investimento na saúde. O país pretende elevar o gasto público com saúde de 5,6% para 9% do orçamento até 2030.
No Mbale Regional Referral Hospital, uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Seed Global Health reduziu a mortalidade materna em 47% no ano passado, mesmo com cortes de ajuda externa.
Esses resultados destacam que investir na capacidade do sistema de saúde pode melhorar o cuidado emergencial e a qualidade dos serviços.
A liderança ugandense busca alinhar financiamento interno e externo a prioridades nacionais, ampliar o acesso a atendimento de emergência e fortalecer a força de trabalho em saúde. Kantono ilustra, em âmbito individual, o impacto positivo dessa estratégia.
O panorama global oferece uma escolha: manter reformas fragmentadas ou construir um sistema capaz de entregar saúde de qualidade para milhões. O debate segue em andamento, com etapas de implementação em aberto.
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