- Dados do PISA 2022 mostram que 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática; na leitura foram 50% e em ciências 45%, versus 69%, 74% e 76% na média da OCDE.
- A IA não substitui leitura, matemática ou raciocínio; quem sabe formular perguntas e avaliar respostas usa melhor a ferramenta.
- Países como Índia, China e Cazaquistão já incluem IA na educação como política pública; a Estônia investe há décadas em cultura digital escolar, e a Coreia do Sul enfrentou resistência e reclassificou IA como material suplementar.
- O Brasil tem exemplos positivos na educação, mas continuam isolados; é preciso tornar esses avanços parte de um sistema, conectando educação básica ao mercado e formação técnica à realidade produtiva.
- A pergunta central é se o Brasil consegue formar pessoas com profundidade para o futuro ou manterá o status de “país do futuro”, perdendo uma oportunidade histórica de transformação.
A discussão sobre inteligência artificial na educação brasileira destaca que as perguntas sobre ferramentas, combate à cola e atualização de currículos chegam tarde se não houver uma base institucional sólida. O foco inicial precisa ser: qual base cognitiva o Brasil construiu para usar IA com autonomia e diligência.
Dados do PISA 2022 mostram o desafio. Apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática, contra 69% na OCDE. Em leitura, 50% versus 74%; em Ciências, 45% contra 76%. Os resultados no Brasil permaneceram estáveis desde 2009, com pequenas oscilações.
A IA não substitui leitura, matemática ou raciocínio. Ela intensifica a importância dessas habilidades. Quem sabe formular perguntas e avaliar respostas usa melhor a ferramenta. Quem não tem base sólida corre risco de terceirizar o que precisa ser desenvolvido.
Cenário internacional e evidências
Países já tratam IA como política educacional. A Índia incluiu IA e pensamento computacional no currículo do ensino básico a partir de 2026. Na China, pelo menos oito horas anuais de educação em IA são obrigatórias desde 2025, para crianças a partir dos 6 anos. O Cazaquistão afirmou compromisso com IA no ensino secundário até 2029.
A Estônia se destaca pela trajetória de inovação pública. O programa Tiger Leap abriu caminho para o atual AI Leap, que amplia acesso a ferramentas e formação docente em escala nacional, resultado de uma política de Estado voltada à digitalização escolar desde os anos 1990.
Desafios e caminhos do Brasil
A Coreia do Sul acelerou livros digitais com IA, enfrentando resistência de pais e docentes devido à formação insuficiente, sobrecarga de trabalho e questões de privacidade. Em 2025, ferramentas passaram a ser tratadas como materiais suplementares, mostrando que IA na educação requer governança pedagógica para não gerar resistência.
No Brasil, existem casos de sucesso: professoras de escola pública reconhecidas internacionalmente, organizações sociais que formam jovens para o trabalho e empresas que entendem a importância da formação contínua. O problema é que essas iniciativas aparecem como exceções, não como sistema.
A lacuna está na arquitetura que conecte educação básica ao mercado de trabalho, currículo à realidade produtiva e formação técnica ao desenvolvimento econômico. A inovação precisa de continuidade institucional para além de talentos excepcionais.
A IA deve acelerar processos, mas é necessário orientar essa aceleração com direção. A pergunta central é se o Brasil consegue formar pessoas com profundidade suficiente para o futuro ou permanece no status de país do futuro, sem transformar a educação de forma estrutural.
Sobre o autor e o objetivo
Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa IA para personalizar a aprendizagem. Ela traz a perspectiva de quem atua na interseção entre educação e tecnologia, destacando a necessidade de políticas públicas que sustentem a melhoria contínua.
Entre na conversa da comunidade