- Dias antes da aprovação no Congresso, em 9 de abril, de emenda à lei dos glaciares para facilitar mineração, o governo de Milei removeu a pintura monumental The Triumph of Nature, de Helmut Ditsch, do Palácio de Casa Rosada, alegando manutenção e danos estruturais.
- A obra, de 1,3 m por 4 m, mostra o Glaciar Perito Moreno e estava em exibição desde 2012; o artista afirma não ter recebido notificação oficial sobre a retirada.
- Também foi removido do mesmo salão um retrato de Juan Domingo e Evita Perón, alegando apenas “manutenção”.
- Historiador Felipe Pigna afirma que os episódios lembram práticas de apagamento de memória observadas em regimes autoritários, associando-os a uma lógica de impor uma nova narrativa.
- O movimento de remoções inclui ainda ações em concurso com mudanças culturais, como a retirada de uma placa em Paris dedicada aos desaparecidos durante a ditadura argentina, substituída por uma nova placa.
O governo de Argentina confirmou a remoção de uma obra monumental do Salão de los Bustos, no Palácio de Jerónimos, como parte de uma operação de manutenção. A peça retrata o Glaciar Perito Moreno e havia ficado exposta na Casa Rosada desde 2012. A remoção ocorreu pouco antes da aprovação, em 9 de abril, de uma emenda à lei de glaciais que facilita a mineração em regiões glaciais, segundo environmentalistas, enfraquecendo a proteção desses reservatórios de água doce.
A obra, intitulada The Triumph of Nature (2006), do artista Helmut Ditsch, é uma pintura photorealista de grande porte, medindo 1,3 m por 4 m, representando os campos de gelo da Patagônia. O trabalho era cedido ao governo e estava na Casa Rosada desde 2012, mantendo-se exposto sob diferentes administrações. A assessoria de comunicação do governo informou à The Art Newspaper que a remoção ocorreu por razões de manutenção para corrigir danos estruturais, sem detalhar.
No mesmo dia, também foi retirada da mesma sala uma pintura de Juan Domingo Perón e Evita, retrato feito por Numa Ayrinhac, datado de 1948. O motivo informado pelos porta-vozes foi apenas de manutenção. A retirada ocorre em um contexto de mudanças promovidas pela administração Milei, que desde dezembro de 2023 busca alinhar instituições públicas a uma agenda crítica a políticas consideradas “woke”.
Contexto institucional e histórico
Em março de 2024, a Câmara aprovou mudanças associadas à chamada lei das glaciares, com foco em facilitar a atividade mineradora em áreas glaciais. Críticos ambientais afirmam que a mudança amplia riscos para as fontes de água e para ecossistemas vinculados aos parques nacionais. A decisão ocorre após ações que remontam a disputas sobre memória histórica e inclusão de figuras femininas em espaços públicos.
Reações e leitura histórica
Pesquisadores e historiadores citados pela The Art Newspaper indicam que episódios de remoção de obras guardam semelhanças com práticas de regimes autoritários, que buscam reescrever narrativas. O historiador Felipe Pigna aponta que movimentos de exclusão de imagens configuram uma estratégia para alterar a linha do tempo histórico, frequentemente ligada a disputas políticas passadas. As discussões sobre memória e identidade nacional têm sido objeto de debate público, com manifestações registradas em abril diante do cenário legislativo em disputa.
Impactos internacionais
O caso ganhou atenção internacional ao ser visto como parte de uma sequência de mudanças simbólicas em instituições argentinas. Em fevereiro, em Paris, a Maison de l’Argentine retirou uma placa que homenageava os 30 mil desaparecidos durante a última ditadura, instalada em 2022. A remoção ocorreu dias antes do 50º aniversário do golpe de 1976, gerando críticas sobre a preservação da memória histórica. A Cité Internationale Universitaire de Paris instalou uma nova placa em frente ao espaço argentino em 24 de março.
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