Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, o escritor ucraniano Andrei Kurkov se viu em uma nova realidade, alternando entre a escrita de um romance sobre a guerra civil de 1919 e a documentação da atual guerra em um diário. Com sua família forçada a deixar Kiev, Kurkov reflete sobre como a agressão russa […]
Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, o escritor ucraniano Andrei Kurkov se viu em uma nova realidade, alternando entre a escrita de um romance sobre a guerra civil de 1919 e a documentação da atual guerra em um diário. Com sua família forçada a deixar Kiev, Kurkov reflete sobre como a agressão russa fortalece a identidade nacional ucraniana. Ele não está sozinho; muitos autores têm se dedicado a registrar a guerra, enquanto leitores redescobrem clássicos da literatura ucraniana. A seleção de escritos de Kurkov, intitulada “Ucrânia: diário de uma guerra”, foi lançada em inglês, e novas obras, como “Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano”, de Oksana Zabuzhko, também estão sendo publicadas.
A literatura ucraniana, especialmente a não ficção, ganhou destaque desde a invasão, com um foco em desmentir a narrativa russa sobre a cultura ucraniana. Alim Aliev, do Instituto Ucraniano, menciona um processo de “descolonização do conhecimento”, com um retorno a autores do século XIX, como Taras Shevchenko e Lesja Ukrajinka. A poesia contemporânea e os diários de escritores vítimas da guerra, como Victoria Amelina, também estão em alta, refletindo a experiência trágica do conflito. A ativista cultural Tetyana Teren destaca que a cultura ucraniana está em uma “fase documental”, abrangendo diversas formas de arte.
Apesar da destruição de mais de 700 bibliotecas até julho de 2023, o cenário literário ucraniano se expande, com novas livrarias e festivais surgindo. Kurkov observa que a queda nos aluguéis pode ter facilitado a abertura de livrarias em Kiev. O prestígio internacional dos autores ucranianos também cresce, com participações em feiras literárias na América Latina e contatos com festivais em países como África do Sul e Brasil. A tradução de obras ucranianas aumentou, e Yuri Andrukhóvytch está organizando um volume com a poesia de Shevchenko para uma editora alemã.
A língua ucraniana, antes marginalizada, agora é defendida por escritores como Andrukhóvytch, que a considera um “tesouro”. Um levantamento mostra que a preferência por ler em ucraniano cresceu de 28% para 54% entre 2018 e 2023, enquanto a preferência pelo russo caiu para 10%. Autores ucranianos, como Olena Stiazhkina, mudaram para o ucraniano após a invasão de 2014. A relação com a literatura russa está em debate, e Andrukhóvytch sugere que, por enquanto, é melhor manter essa cultura em “quarentena” devido à sua utilização como ferramenta de propaganda.
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