- O governo sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, derrotou as Forças Democráticas Sírias (SDF) e expulsou-as de grande parte do território que controlavam, marcando revés para os curdos na região.
- A derrota da SDF e o rompimento com Washington abalam as aspirações de autonomia curda, apesar de fortalecerem o orgulho entre os curdos; para Turquia e governo de Damasco, porém, o desfecho é incerto sem avanços políticos.
- A Turquia, há anos buscando minar a SDF, ganhou influência na Síria ao apoiar o regime de Sharaa e apoiar a criação de forças apoiadas por Ancara, além de pressionar pela incorporação da SDF ao exército sírio.
- O governo americano encurtou o suporte à SDF, com declarações de que a função original da SDF contra o Estado Islâmico havia “expirado”, e transferiu parte das responsabilidades de detenção de insurgentes para a Síria e, em seguida, para o Iraque.
- Sharaa decretou reconhecimentos de identidade curda na Síria, ao reconhecer o curdo como língua nacional (não oficial) em áreas selecionadas e estabelecer o Nowruz como feriado nacional, o que preocupa a Turquia diante de ganhos de visibilidade curda na região.
O governo sírio, sob a liderança de Ahmed al-Sharaa, reconquistou grande parte do território controlado pela Força Democrática Síria (SDF) após uma série de combates intensos. A ofensiva aponta para uma mudança decisiva desde a derrota do regime de Bashar al-Assad em 2024 e enfraquece a coalizão curda que era aliada dos EUA contra o Estado Islâmico. A vitória ocorreu no curto espaço de tempo da semana passada, em meio a uma nova configuração regional.
A derrota da SDF reacende antigas tensões entre curdos, Turquia e Síria, além de redesenhar alianças internacionais na região. Mazloum Abdi liderava as forças curdas, cuja ascensão tinha fortalecido o orgulho étnico e a autonomia de facto. Já Washington, com mudanças de estratégia, enfrenta um sentimento de traição entre seus parceiros curdos. Ankara e Damasco buscam now consolidar ganhos políticos e territoriais.
O pano de fundo remonta a 2014, quando o Estado Islâmico avançou pela região. O apoio dos EUA à SDF, formado em grande parte por combatentes curdos, tornou-se crucial para conter o grupo extremista. O surgimento da SDF trouxe legitimidade e proteção, mas também geração de expectativas de autonomia entre os curdos da região.
Contexto regional
A ascensão de Ahmed al-Sharaa, líder do HTS, e a melhoria de relações com potências ocidentais abriram espaço para a normalização de Damasco e a remoção de sanções. Ankara teme que a autonomia curda na Síria fortaleça reivindicações semelhantes na Turquia e tem apoiado a integração de áreas sob controle sírio ao governo central.
A Turquia criou e financiou a Syrian National Army, ampliando sua influência e pressionando a fronteira sírio. Erdogan tem apoiado a fusão das forças da SDF no aparato militar sírio, com ameaças de intervenção direta para conter a autonomia curda. A relação entre EUA, SDF e Turquia permanece tensa e de difícil manejo estratégico.
Os efeitos sobre a ideia de autonomia curda vão além das forças sírias. Rojava, modelo de governança que combinava defesa e adminstração civil, tornou-se referência para movimentos curdos regionais. No entanto, as recentes derrotas reduzem as perspectivas de um acordo autônomo formal na Síria.
Desdobramentos e próximos passos
Enquanto Ankara celebra ganhos estratégicos, a gestão de Damasco pretende centralizar o poder, o que pode aumentar tensões com comunidades curdas. A crise também envolve a reorganização do tratamento de prisioneiros do Estado Islâmico, com a retirada de detidos para locais mais seguros no Iraque.
Nos EUA, a relação com a SDF perde consistência, com declarações oficiais sugerindo uma mudança de foco no combate ao extremismo. A percepção de confiabilidade norte-americana entre curdos e demais atores regionais pode influenciar futuras alianças e políticas de segurança.
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