- Ian Simiyu viu anúncio no Facebook oferecendo visto de trabalho na Rússia e passagem aérea para trabalhar como faxineiro, mas a documentação atrasou a viagem.
- Outros quenianos aceitaram anúncios parecidos e foram à Rússia para trabalhar como motoristas ou guardas, mas foram forçados a entrar no exército.
- Em fevereiro, a inteligência queniana estimou que mais de mil quenianos lutaram na guerra da Rússia contra a Ucrânia; há alegações de funcionários corruptos e agências de recrutamento fraudulentas.
- Pelo menos um queniano morreu, 39 foram hospitalizados e 28 estão desaparecidos; a embaixada russa em Nairóbi negou envolvimento oficial.
- A pobreza e o desemprego levam jovens a buscar trabalho no exterior; há relatos de recrutamento por meio de igrejas, com debates sobre monitoramento de entidades estrangeiras.
Ian Simiyu, de Eldoret, buscava empregos temporários para sustentar a família quando viu, em abril, um anúncio no Facebook oferecendo trabalho como faxineiro na Rússia para brasileiros. O anúncio prometia visto de trabalho e passagem aérea.
Ele correu atrás do passaporte, mas a burocracia e as taxas atrasaram o processo. Enquanto isso, outros kenyans haviam aceitado anúncios parecidos e viajado para a Rússia para dirigir ou atuar como guardas, sob pressão para ingressar no exército.
Ao acompanhar relatos de jovens capturados na linha de frente da Ucrânia, Simiyu ficou surpreso ao perceber que a vaga de trabalho poderia ter sido fraude. Um homem queniano, identificado apenas como Evans, descreveu ser enganado por um agente esportivo e forçado a alistar-se.
Em fevereiro, agentes de inteligência do Quênia estimaram que mais de 1.000 quenianos lutaram na guerra entre Rússia e Ucrânia, alguns de forma voluntária e outros sob falsa pretensão de emprego. A versão oficial também aponta possível conluio entre funcionários e agências de recrutamento.
Após protestos de famílias, o ministro de Relações Exteriores do Quênia, Musalia Mudavadi, reuniu-se com o correspondente russo para interromper a participação de quenianos no conflito. As autoridades concordaram em proibir recrutamento de nacionais quenianos para o exército russo.
Pelo menos um queniano, Charles Waithaka Wangari, morreu no conflito. Outros 39 ficaram hospitalizados e 28 estão considerados desaparecidos. A Embaixada da Rússia em Nairóbi negou envolvimento de seus oficiais e chamou as acusações de propaganda.
Contexto
Relatórios indicam que a Igreja Ortodoxa russa, que expandiu sua presença na África, estaria ligada a promessas de oportunidades de trabalho no exterior. Críticos e organizações de direitos humanos levantam preocupações sobre uso de redes religiosas para recrutamento.
Especialistas destacam fatores como desemprego e pobreza no Quênia, que tornam jovens mais vulneráveis a propostas de trabalho no exterior. Estudos oficiais apontam altos índices de pobreza e desemprego, alimentando a procura por soluções rápidas.
Em casos isolados, a fuga de informações e a disseminação de conteúdos nas redes ajudam a atrair jovens. Há relatos de que documentos em russo são forçados a assinaturas em contextos de recrutamento forçado.
Um caso relatado pela imprensa local descreve um homem que viajou a Moscou e, após chegar, teve o passaporte confiscado e foi enviado ao front. Ele pediu ajuda ao governo queniano após sofrer ferimentos provocados por ataques aéreos.
Especialistas ressaltam que nem toda mobilização é induzida; alguns jovens veem na participação uma forma de escapar da pobreza. No entanto, autoridades enfatizam a necessidade de vigilantismo para evitar fraudes e coerção.
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