- Pesquisadores da Indonésia relatam que 30 de 32 membros da comunidade Iban consideram que figueiras-latro de brejo abrigam entidades sobrenaturais que podem ser perigosas se perturbadas.
- Novo estudo, publicado na revista Biotropica, mostra que essa crença tem benefícios ecológicos observáveis, como a proteção de áreas ao redor das figueiras gigantes.
- Quando agricultores encontram uma figueira-cacho (figueira-essencial) durante o manejo da terra, eles protegem a árvore e uma ilha de vegetação ao redor, em um raio de cerca de 10 metros.
- Esses povoados de árvores, ou “ilhas”, representam entre 1% e 2% das terras cultiváveis e funcionam como refúgios e corredores para a fauna.
- A biodiversidade é mantida porque as figueiras fornecem alimento ao longo do ano, com várias espécies frutificando em momentos diferentes, sustentando aves e mamíferos que dispersam sementes.
O que aconteceu: em Sungai Utik, West Kalimantan, Indonésia, um estudo publicou evidências de que a proteção cultural de figueiras macurunas (arriens strangler figs) tem impactos ecológicos positivos. A pesquisa aponta que a comunidade Iban mantém uma prática de proteção de árvores hospedeiras e de áreas ao redor durante o manejo agrícola.
Quem está envolvido: o trabalho foi conduzido por Ditro Wibisono Wardi Parikesit, com participação de moradores da comunidade Iban, que compartilharam relatos sobre o uso de crenças espirituais ligadas às figueiras. As conclusões integram o corpo científico publicado na revista Biotropica.
Quando e onde: o levantamento foi realizado ao longo de mais de 16 quilômetros de floresta primária e 16 quilômetros de áreas agricultáveis na região de Sungai Utik, região de Kalimantan Ocidental, na Indonésia. A coleta de dados ocorreu durante o trabalho de campo recente, com base em entrevistas e observação de campo.
Por que é relevante: a pesquisa analisa como a crença de que as figueiras abrigam entidades espirituais leva à proteção de árvores hospedeiras e de zonas buffer ao redor, prática chamada dipulau. A proteção resulta em ilhas de vegetação que representam entre 1% e 2% da área de cultivo total, servindo como refúgios para fauna e pontos de dispersão de sementes.
Como funciona a prática: as figueiras atingem o papel de centrais ecológicos ao atrair frutos de várias espécies, garantindo alimento para aves e mamíferos durante o ano. A proteção das árvores envolve manter zonas de vegetação ao redor, que variam conforme o tamanho das copas, entre menos de 5 metros e mais de 40 metros de diâmetro.
Dados do estudo: foram catalogadas 25 espécies de figueiras hospedeiras em diferentes áreas, com densidade semelhante entre áreas agrícolas e florestais (aproximadamente 1,2 por hectare na agrofloresta e 0,9 por hectare na floresta). As copas das figueiras que prosperam na área de cultivo tendem a ter diâmetros médios superiores, o que amplia a área de proteção ao redor.
Impactos na fauna e na agricultura: especialistas destacam que as figueiras fornecem recursos alimentares constantes para animais que disseminam sementes de centenas de espécies de floresta. A presença dessas árvores em mosaicos agrícolas facilita a conectividade de habitats e pode contribuir para a regeneração de áreas degradadas quando campos são abandonados.
Contexto cultural e científico: entre os moradores, a crença em entidades associadas às figueiras, como o Antu Grasi (fantasma caçador) e outras manifestações espirituais, está ligada a benefícios não apenas culturais, mas ecológicos. A prática de respeitar as figueiras é vista como forma de evitar consequências negativas, como doenças ou mortalidade, segundo relatos coletados pelo pesquisador.
Possíveis aplicações futuras: o estudo aponta que o modelo de “ilhas” de árvores isoladas, mantido durante o manejo agrícola, pode ser replicado em outros lugares para tornar a agricultura mais favorável à biodiversidade e facilitar a regeneração de florestas. O conceito de nucleação aplicada já é estudado em outros contextos de restauração florestal.
Fonte e creditação: as informações derivam de pesquisa publicada na Biotropica, com base em entrevistas e observações do pesquisador Ditro Wibisono Wardi Parikesit, em parceria com a comunidade Iban de Sungai Utik.
Observação: a leitura do estudo reforça a relação entre crenças tradicionais e conservação de espécies-chave, demonstrando que proteger figueiras hospedeiras beneficia o ecossistema local sem desconsiderar práticas culturais.
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