- A Raízen protocolou recuperação extrajudicial, envolvendo dívida de R$ 65 bilhões, maior montante já registrado em processo desse tipo no Brasil.
- O acordo prevê um standstill de 90 dias, com suspensão dos juros e do principal da dívida financeira, mantendo pagamentos a fornecedores, funcionários e parceiros.
- Credores que respondem por mais de 40% da dívida total já aderiram ao acordo antes do protocolo.
- Os acionistas controladores anunciaram aportes de R$ 4 bilhões: Shell contribuirá com R$ 3,5 bilhões e um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos, R$ 0,5 bilhão.
- A Moody’s rebaixou a nota da companhia de Caa1 para Caa3, com perspectiva negativa, no mesmo dia do protocolo.
A Raízen protocolou nesta terça-feira, 10 de março, um pedido de recuperação extrajudicial junto ao Judiciário. A empresa, resultado da joint venture entre a Shell e o grupo Cosan, tem dívidas concursais de 65 bilhões de reais, o maior valor já registrado em um processo desse tipo no Brasil. Credores que respondem por mais de 40% da dívida já aderiram antes da protocolização.
A medida suspende, por 90 dias, o serviço da dívida financeira. Durante esse período, a Raízen e credores negociam um plano de reestruturação financeira. O procedimento permite fechar acordo com um grupo de credores e só depois obter homologação judicial, diferente da recuperação judicial que envolve toda a dívida.
A empresa afirmou que manterá as operações normais e que fornecedores, funcionários e parceiros não serão impactados. A estratégia visa preservar caixa com a entrada da safra de cana-de-açúcar, período de maior necessidade de capital de giro. Em dezembro de 2025, a Raízen tinha 17,3 bilhões de reais em caixa.
Estrutura de capital e adesões
A maior parte da dívida concursal está sob responsabilidade de bancos, com a outra metade distribuída entre detentores de CRAs e debenturistas. Acionistas controladores aportam 4 bilhões de reais, sendo 3,5 bilhões pela Shell e 500 milhões por um veículo ligado à Aguassanta Investimentos, da família de Rubens Ometto.
O plano pode incluir conversão parcial de dívida em ações, alongamento de prazos e venda de ativos não estratégicos. A Moody’s rebaixou o rating da Raízen de Caa1 para Caa3, com perspectiva negativa, no mesmo dia da protocolização.
Histórico e contexto financeiro
Criada em 2011 pela parceria entre Shell e Cosan, a Raízen tornou-se grande produtora de etanol de cana. A empresa passou a financiar projetos de longo prazo com dívida a partir de 2016, o que ampliou a alavancagem quando a taxa básica subiu.
No período 2021/2022, houve lucro líquido de 3 bilhões de reais e dívida líquida de 13,8 bilhões, com alavancagem de 1,3 vez o EBITDA. Ao fim do último exercício, a dívida líquida atingiu 55,3 bilhões, alta de 43% e alavancagem de 5,3 vezes o EBITDA.
No terceiro trimestre da safra 2025/26, houve prejuízo líquido de 15,6 bilhões, seis vezes maior que o registrado no mesmo intervalo anterior. No acumulado dos nove meses, o prejuízo chegou a 19,8 bilhões.
Assessoria e próximos passos
A Raízen informou ter contratado escritórios de advocacia para assessoria jurídica e Rothschild & Co para assessoria financeira. O próximo passo envolve a negociação do plano de recuperação extrajudicial com credores e eventual homologação judicial.
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