- O governo ucraniano estima que Russia já levou quase 20 mil crianças desde o início da guerra; Moscou afirma que seriam evacuações humanitárias, não abduções.
- Um caso destacado é o de Sashko Radchuk, que tinha doze anos quando foi separado da mãe e submetido a centros de filtragem e a possível adoção ou envio a escolas militares; ele reencontrou a avó meses depois, graças a redes de proteção.
- Organizações como Save Ukraine trabalham com uma “linha ferroviária subterrânea” para resgatar crianças, com centenas já devolvidas e apoio a reintegração em várias regiões da Ucrânia.
- Existem relatos de canais no Telegram usados para promover transferências de crianças para a Coreia do Norte; há também casos de crianças levadas a regiões isoladas na Rússia, como as ilhas Kuril.
- Centros educativos e de empoderamento mantidos por igrejas, em 11 regiões, ajudam crianças resgatadas e suas famílias com terapia e apoio à reintegração, em um esforço coordenado com redes internacionais.
Sashko Radchuk, hoje com 15 anos, vive com a avó desde que foi separado da mãe durante a invasão da Ucrânia pela Rússia. O garoto, então com 12 anos, teve o olho ferido por fragmento de projétil em Mariupol, em 2022, e acabou deslocado para um hospital de campanha antes de ser levado a um local de filtragem.
Dois hospitais diferentes, sob controle de autoridades russas, acompanharam a recuperação de Radchuk. Em seguida, abriu-se caminho para uma transferência para uma instituição de educação ou adoção em família russa, conforme relatos da coordenação local.
A família de Radchuk não teve notícias constantes desde o sequestro. O avô, que ficou como responsável, manteve contato com redes de direitos infantis na Ucrânia para localizar o garoto e tentar o retorno. A mãe permanece desaparecida.
O governo ucraniano estima que, desde o início do conflito, quase 20 mil crianças foram tiradas de suas casas pela Rússia. A contabilidade de Moscou aponta números significativamente maiores, chegando a quase 700 mil, sob a justificativa de evacuação humanitária.
Muitos menores são encaminhados a centros de reeducação ou a adoção irregular, e alguns casos indicam envio para escolas militares. Observadores alertam que o objetivo pode ser apagar a identidade ucraniana dos pequenos, dificultando o retorno.
Mykola Kuleba, fundador da Save Ukraine, afirma que a prática busca apagar a língua, a fé e a cultura das crianças. Organizações religiosas atuam no resgate, identificação e acompanhamento psicossocial, além de facilitar contatos confiáveis.
A ONG Save Ukraine opera uma “ferrovial subterrânea” para resgatar crianças, o que envolve meses de planejamento para reconstruir certidões de nascimento e traçar rotas que atravessam diversos países. Casos grandes exigem deslocamentos complexos pela região.
Testemunhos de crianças resgatadas indicam a circulação de canais de comunicação que promovem deslocamentos para destinos fora da Ucrânia, incluindo relatos de possível envio para a Coreia do Norte. A veracidade dessas informações é objeto de apuração, segundo pesquisadores.
Casos confirmados também apontam deslocamentos para regiões remotas na Rússia, como as Ilhas Kuril, a milhares de quilômetros do país de origem. A preservação de nomes e datas de nascimento dificulta o rastreamento a longo prazo.
Especialistas destacam que quanto mais tempo as crianças ficam sob controle russo, maiores os obstáculos para a reintegração. Equipes de psicologia ajudam a garantir quevoltem para casa, mesmo diante de relatos de propaganda.
Além de operações de resgate, a Save Ukraine gerencia 20 centros de educação e empoderamento, em 11 regiões da Ucrânia, para apoiar crianças resgatadas e famílias afetadas pelo trauma e pela deslocação.
Durante audiências no Senado dos Estados Unidos em dezembro, representantes ucranianos enfatizaram a importância do apoio internacional para resgate, reabilitação e reintegração de crianças, destacando o papel da cooperação bipartidária.
Radchuk diz que a busca por notícias sobre a mãe é constante, mas, até o momento, as tentativas de localização não receberam resultado. Ele descreve a distância emocional e o impacto da separação, com a esperança de que negociações de paz avancem para possibilitar o retorno de crianças e adultos desaparecidos.
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