- Jennifer Pan é escritora que vive em Los Angeles, com textos em The Nation, The Atlantic, Dissent e Damage; também apresentou o Jacobin Show e atuou como redatora da The New Republic.
- Seu livro Selling Social Justice: Why the Ruling Class Loves Antirracism (Justiça Social à Venda: Por que a Classe Dominante Ama o Antirracismo) analisa como a elite nos Estados Unidos adotou certo antirracismo a partir de 2020 para ampliar poder corporativo, evitar regulação e substituir reformas por políticas de diversidade, equidade e inclusão, com resultados limitados.
- CartaCapital publicou, na edição n° 1392 de 17 de dezembro de 2025, trechos da entrevista em que Pan compara EUA e Brasil, discute limitações das políticas de reparação e aponta um reposicionamento de marcas em DEI/ESG.
- Pan ressalta assimetria racial e de gênero nos Estados Unidos, com brancos superrepresentados em setores como mercado editorial e conselhos, enquanto trabalhadores não brancos costumam priorizar salário em detrimento de ter alguém parecido no alto escalão.
- Sobre políticas de reparação, Pan defende pré-distribuição e redistribuição, afirmando que benefícios pontuais tendem a dividir a sociedade em cenário de estagnação; aborda paralelos com o Brasil e descreve o chamado reposicionamento de marca, em que empresas mantêm práticas de DEI/ESG sob diferentes rótulos ou reduzem o discurso, sem mudanças substanciais.
Jennifer Pan, escritora que vive em Los Angeles, é autora de Selling Social Justice e analisa o uso político da justiça social pela elite econômica. A entrevista, conduzida com foco em parallels EUA-Brasil, compõe a edição de carta Capital nº 1392, de 17 de dezembro de 2025, intitulada O marketing da justiça social.
Pan já teve textos publicados em The Nation, The Atlantic, Dissent e Damage, foi apresentadora do Jacobin Show e redatora da The New Republic. O livro recém-lançado pela Verso critica o papel da justiça social como ferramenta de poder corporativo, especialmente a partir de 2020, com foco em políticas de DEI.
A obra argumenta que a nova gramática moral, ao privilegiar diversidade e inclusão, pode desviar o foco de reformas materiais, mantendo a ordem econômica. A entrevista também analisa a aplicação dessa lógica no Brasil, em contexto de desigualdade histórica e debates sobre representação.
Paralelos EUA-Brasil
No debate, Pan aponta que, apesar de diferenças históricas, existem similitudes na forma como a elite atua. Ela destaca que, nos EUA, brancos seguem super-representados em editoras e conselhos, enquanto trabalhadores não brancos muitas vezes preferem salários maiores a ter alguém parecido em cargos altos.
A pesquisadora afirma a necessidade de duas frentes: pré-distribuição, para corrigir políticas públicas antes da remuneração, e redistribuição, por meio de tributação. Números indicam que trabalhadores tendem a favorecer medidas de pré-distribuição, rejeitando a ideia de que o trickle down funcione.
Pan também ressalta que muitos executivos apoiam metas de diversidade, mas as empresas continuam orientadas pelo lucro. Mesmo com convicção pessoal, o discurso encontra limites práticos quando há pressão por desempenho financeiro e valor de mercado.
O movimento pós-woke e o DEI
Segundo a entrevista, não é possível afirmar a morte do DEI. O movimento teve pico entre 2020 e 2021, após o assassinato de George Floyd, e sofreu recuo com ataques à agenda por parte de setores conservadores. Algumas empresas substituíram DEI por pertencimento, mantendo práticas semelhantes.
Ainda assim, empresas de grande porte mantêm investimentos em diversidade e ESG, com apoio de acionistas institucionais. O que se observa é um reposicionamento de marca, com marcas que redesenham o vocabulário, sem mudar significativamente as políticas.
Políticas de reparação e suas críticas
Pan critica as políticas de reparação como resposta pontual a uma desigualdade estrutural. Em cenário de estagnação para a maioria dos trabalhadores, benefícios focalizados podem aprofundar a divisão social. A pesquisadora defende ampliar o foco para quem é pobre hoje, independentemente de genealogia.
Ela sustenta que reformas universais, em vez de soluções pontuais, tendem a ser mais eficaz economicamente e morais. O posicionamento sugere que parte da esquerda deveria mirar direitos universais, buscando reduzir desigualdades amplas sem segmentação excessiva.
Implicações para o Brasil e o panorama político
Na leitura sobre Brasil, Pan compara ciclos eleitorais com os EUA: políticas identitárias ajudam a impulsionar resistências conservadoras em momentos de crise econômica. O resultado é a dificuldade de consolidar pautas materiais em bases amplas, o que alimenta polarização.
A entrevista, publicada na edição impressa de CartaCapital com o título O marketing da justiça social, propõe uma leitura crítica sobre o uso da retórica de inclusão, destacando impactos sobre políticas públicas e trajetórias eleitorais.
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