Nos anos 2000, muitos filmes mostravam uma protagonista que rejeitava tudo que era considerado feminino, como vestidos e maquiagem, e que acabava conquistando o mocinho. Ao mesmo tempo, havia a personagem da patricinha malvada, que era linda e popular, mas superficial e competitiva. Isso fez com que muitas meninas se sentissem obrigadas a escolher entre ser a “diferentona” ou a garota má. A expressão “pick me girl” se refere a mulheres que tentam se destacar para agradar os homens, muitas vezes diminuindo outras mulheres. Essa ideia se popularizou, mas pode ser cruel, pois algumas meninas são rotuladas sem entender suas verdadeiras motivações. Por outro lado, surgiu a figura da “girl’s girl”, que valoriza as amizades femininas e apoia outras mulheres, sem vê-las como rivais. No entanto, essa nova tendência também pode levar à exclusão, criando uma divisão entre “girl’s girl” e “pick me girl”. O importante é que não precisamos de rótulos para ser quem somos. O que realmente importa é apoiar umas às outras, reconhecendo a diversidade e a liberdade de ser mulher.
O enredo que a gente já conhece
Se você cresceu nos anos 2000, vai lembrar de ao menos um filme em que a protagonista rejeitava vestidos, maquiagem e tudo que fosse considerado “feminino demais”. Ela era vista como *“diferente das outras”* e por isso mesmo, acabava ganhando o coração do mocinho.
Mas o roteiro também incluía outra personagem: a patricinha malvada. Linda, popular, obcecada por aparência e poder. De Regina George (*Meninas Malvadas*) a Sharpay Evans (*High School Musical*), essas personagens encarnavam tudo o que não deveríamos querer ser. Assim, cresceu uma geração que aprendeu a escolher entre dois arquétipos: ou você era a “diferentona” que andava com os meninos, ou a garota superficial e má, que competia com todas as outras.
Nessa falsa dicotomia, perdemos nuances e complexidades — e aprendemos, desde cedo, a não estar do lado de outras mulheres.
O que é uma “pick me girl”?
A expressão “pick me girl” vem do inglês *pick me* (me escolhe) e define mulheres que tentam se diferenciar das outras para agradar aos homens. A origem do termo é frequentemente associada a uma cena clássica de *Grey’s Anatomy*, quando a personagem Meredith Grey implora: *“Pick me. Choose me. Love me.”* para que um homem casado escolha ela em vez da esposa dele. A frase virou símbolo de um tipo de comportamento que busca validação romântica a qualquer custo, mesmo que isso signifique apagar outras mulheres no processo.
Em sua forma mais estereotipada, é a garota que diz: *“eu não sou como as outras meninas”*. Ela prefere preto a rosa, skate a compras, e diz que não consegue manter amizades femininas porque “são muito falsas”.
Popularizada no TikTok, a expressão virou piada, contudo, também pode ser cruel. Muitas meninas são chamadas de “pick me” por gostarem genuinamente de coisas fora do estereótipo feminino. O que era para ser uma crítica ao machismo internalizado, às vezes acaba virando uma forma de patrulha comportamental.
Nem tudo é sobre agradar alguém
A questão aqui não é o gosto, e sim o motivo por trás dele. Tudo bem amar futebol, videogame ou rock pesado. A pergunta é: você ama essas coisas porque elas fazem parte de quem você é, ou porque aprendeu que gostar disso te torna “melhor que as outras garotas”?
O perigo está quando o discurso se apoia em diminuir o que é visto como feminino para se sentir superior. Mas, ao mesmo tempo, não dá pra sair rotulando todo mundo como “pick me” sem entender suas motivações. E é aí que mora a armadilha: acabamos criando um novo tipo de julgamento, que só troca de nome.
Surge a “girl’s girl”
Em contrapartida, outra tendência explodiu nos últimos tempos: a valorização das amizades femininas. A “girl’s girl” (garota das garotas) é aquela que prioriza os laços com outras mulheres, celebra suas vitórias, oferece apoio e não vê as outras como rivais.
Ser uma “girl’s girl” não é sobre saias rodadas, jantares temáticos ou estética feminina — é sobre atitudes. E é aí que a coisa fica bonita: nos pequenos rituais que ganham significado quando compartilhados com outras mulheres. Se arrumar juntas ouvindo música alta, assistir a *Mamma Mia* num domingo à tarde, fazer uma noite com vinho e baralho… Tudo isso vira gesto de afeto.
É ela quem empresta um absorvente no banheiro da balada, avisa que a etiqueta está aparecendo ou celebra com entusiasmo quando a amiga passa no emprego dos sonhos. Duplas como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel, ou Monica Martelli e Ingrid Guimaraes, são alguns exemplos de amizades públicas que inspiram esse tipo de conexão.
Mas é importante lembrar: não é obrigatório fazer nada disso para ser uma boa amiga ou uma boa mulher. O essencial é o respeito, a escuta e o apoio genuíno.
A patrulha só mudou de nome?
Apesar da vibe positiva, o culto à “girl’s girl” também pode virar exclusão disfarçada. Agora, quem não performa feminilidade ou não tem uma girl gang animada vira “menos mulher”? Novamente, o perigo mora nos extremos.
Criamos uma oposição entre a “girl’s girl” e a “pick me girl”, quando a verdade é que essas categorias são frágeis e limitadoras. E isso vai contra o que deveria ser o centro da conversa: liberdade para ser quem somos. Nem toda mulher que é vaidosa e arrumada se acha melhor que as outras meninas e nem toda garota que prefere andar com homens é uma traidora da causa.
O lado mais bonito de ser mulher
No fim, não deveríamos precisar de termos como “pick me” ou “girl’s girl”. Não há jeito certo de existir no mundo sendo mulher. O que existe é um chamado coletivo para nos apoiarmos mais — com nossas diferenças, contradições e jeitos únicos de viver.
Ser mulher pode ser caótico, intenso, desafiador. Mas também é doce, potente e mágico. E quando nos unimos, essa experiência se transforma. Seja com uma parceira fiel de infância ou um grupo inteiro da faculdade, o que realmente importa é reconhecer no feminino um espaço de afeto, acolhimento e liberdade.
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